A discussão para a flexibilização da economia começou tão logo foi decretado o isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus. Nesta fase, prevalecia ainda a tese de que o novo coronavírus era grave apenas para os idosos. Os demais, sobreviveriam sem problemas à "gripezinha" que chegava ao País. Otimistas falavam em sete mil mortes. Mas o que são sete mil velhos mortos diante de sabe-se lá quantas mil pessoas que poderão morrer de fome por falta de emprego e trabalho, perguntavam, em tom de alerta, empresários, alguns famosinhos e outros apenas donos de marcas conhecidas no mercado. A discussão, plausível, porém levada pelo caminho errado e com base em argumentos "insensíveis", gerou indignação e revolta em muitos brasileiros.

Essa postura egoísta e gananciosa dos empresários, conforme definida por alguns analistas, despertou do sono eterno um lado desconhecido (ou pouco conhecido) do cidadão, o lado consumidor de ideias. É, ele existe sim, e convive com o lado consumidor de produtos no interior de cada um de nós. A harmonia entre ambos é por vezes difícil, contudo, de uns tempos para cá o lado consumidor de ideias tem cada vez mais exercido forte influência no lado consumidor de produtos e acumulado boas vitórias.

Já repararam que a palavra boicote tem ganhado relevância no vocabulário do cotidiano? O boicote é a arma preferencial do consumidor de ideias, que a usa não raro quando suas crenças são agredidas ou desrespeitadas por empresas, marcas, personalidades e políticos.

No Brasil, o consumidor de ideias, que já é expressivo e respeitado nos EUA e Europa, carrega bandeiras de inúmeros movimentos, que se fortalecem e ganham adeptos sobretudo pelas redes sociais. São movimentos políticos partidários, religiosos, de diversidade, proteção animal, antirracistas, igualdade racial, preservação ambiental, feministas, dentre outros. Na maioria das vezes, estes movimentos agem de forma independente, mas em função da causa em pauta, eles podem unir suas bandeiras. E se transformarem em movimentos gigantes!

Empresários que desconheciam ou não davam importância para o lado consumidor de ideias dos cidadãos têm falado o que pensam sem pensar nas consequências de suas falas. Alguns dos que se manifestaram contra o isolamento social desprezando o número possível de mortes que poderiam ser provocadas pela Covid-19, por exemplo, recuaram de suas posições e vieram a público com desculpas após sentirem a pressão nas redes sociais e no ticket de vendas de seus produtos.

O restaurante Madero foi um dos alvos de boicote. O seu proprietário disse que lamentava as mortes pelo Covid-19, mas que a economia tinha que seguir rodando. Não bastasse, disse também que não demitiria funcionários por causa da pandemia e, tempo após, colocou 600 no olho da rua. Suas desculpas não surtiram efeito. Outro que sofre as consequências por passar dos limites em suas manifestações públicas é Greg Glassman, fundador da marca Crossfit. No Twitter, fez um trocadilho sem graça e de mau gosto com a palavra Covid-19. Ele escreveu "Floyd-19" para dizer que as manifestações do movimento Black Lives Matter, em protesto pelo assassinato de George Floyd pela polícia americana, poderiam aumentar a contaminação pelo coronavírus. Sua "brincadeira" não pegou nada bem. Patrocinadores abandonaram a marca Crossfit, assim como muitos franqueados, inclusive do Brasil.

Profissionais de marketing e publicitários devem aprender a se conectar com este "novo consumidor" e, para tanto, precisam saber ouvir, entender e aprender a conversar com ele. Já não basta às empresas, na aplicação de seu marketing social, somente aproveitar uma boa oportunidade de visibilidade e patrocinar ou apoiar esta ou aquela bandeira social. O consumidor de ideias quer empresas verdadeiramente comprometidas. Ele já não se deixa levar somente por um slogan bem bolado ou estratégia bem desenhada. O consumidor de ideias busca compromisso honesto, sincero e ético por parte das empresas. 

João Fortunato é jornalista, professor e mestre em Comunicação

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